quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Distúrbios gastro intestinais durante o exercício

Problemas gastro intestinais durante o exercício
Os problemas gastro intestinais são muito comuns em atletas de fundo, 30-90% já tiveram distúrbios gastro intestinais durante o exercício. Os sintomas mais comuns são: azia, dor abdominal, refluxo gastro esofágico, náuseas, vómitos, flatulência, cólicas, diarreia, obstipação e perda de apetite.
No início do exercício ocorre um aumento dos impulsos dos centros motores no sistema nervoso central que estão inteiramente dependentes da intensidade e duração do exercício.
Estas alterações provocam o aumento da actividade simpático-renal e hormonas hipofisárias que controlam a segregação das células endócrinas, originando a diminuição da insulina, aumento do glucagon, estimulação do eixo renina-angiotensina-aldosterona e peptídeos relacionados com a homeostasia do tracto gastro intestinal. O exercício diminui as concentrações da grelina (diminui a sensação de fome), e aumenta o peptídeo YY (diminui o esvaziamento gástrico), Glucagon Like Peptídeo 1 (diminui as concentrações da insulina) e polipeptídeo pancreático (diminui as segregações de bicarbonato e enzimas pancreáticas), o que irá provocar numa diminuição do esvaziamento gástrico aumentando assim o risco de ocorrência de problemas gastro intestinais.
Ao nível do sistema cardiovascular o distúrbio da homeostasia induzida pelo exercício, provoca um aumento do débito cardíaco e uma redistribuição do fluxo sanguíneo do mesentérico (membrana que contem vasos sanguíneos do tracto gastro intestinal), para o coração, músculos, pulmões e pele.
A associação destes factores fisiológicos com o próprio movimento visceral (factor mecânico) e a ingestão de alimentos durante o exercício potenciam a ocorrência dos distúrbios gastro intestinais (figura 1).


Factores Isquémicos
A redistribuição do fluxo sanguíneo permite o aumento da perfusão dos tecidos activos, originando numa diminuição de 80% a nível visceral comparativamente ao estado de repouso. Ficando a mucosa intestinal sujeita a uma isquemia transitória, provocando o aumento da permeabilidade da mucosa, diminuição da actividade peristáltica do esófago, tónus do esfíncter esofágico, o que poderá estar relacionado com o aumento de refluxo gastro esofágico.
 O exercício moderado parece não ter efeito sobre a motilidade gastro intestinal, todavia, em ambientes competitivos onde a intensidade é maior, os sintomas aumentam. A intensidade e os níveis de desidratação também estão associados á ocorrência de distúrbio gastro intestinais durante os eventos desportivos. A absorção não está comprometida, no entanto a permeabilidade da mucosa aumenta, resultando na destruição da barreira imunológica da mucosa intestinal causando diarreia devido á entrada de microorganismo nas células do intestino (endotoxémia).
Factores mecânicos
Durante o exercício existe um aumento da vibração da parede abdominal, associado ao aumento da pressão intra-abdominal, impacto e deslocamento das vísceras, causando trauma mecânico nos órgãos internos. Ocorrendo um aumento no gradiente de pressão entre o esófago e o estomago o que associado a um relaxamento do esfíncter esofágico resulta num aumento do refluxo gastro esofágico, o que está associado a sintomas tais como: vómitos e náuseas. Outro factor importante está relacionado com o angulo de curvado do tronco sobre os membros inferiores. Observou-se que em triatletas de longa distancia (ironman), que exibiam menor angulo na posição “aerodinâmica” estava correlacionado com um aumento dos sintomas. Na corrida de fundo esta posição não acontece, todavia durante as subidas das corridas de trail, existe uma diminuição deste angulo, associado ao aumento da pressão abdominal causada pelo aumento de força exercida, o que por si só poderá ser um factor de risco.

Factores endócrinos/neuroimunes
O exercício estimula o eixo hipófise-adrenal, levando ao aumento da concentração de varias hormonas imunossupressoras, uma delas é o cortisol, o que provoca o aumento da susceptibilidade às infecções respiratórias das vias superiores. O cortisol inibe a produção da imunoglobina SLgA, causando uma diminuição dos linfócitos B após o exercício. A supressão da SLgA, também está associado ao balanço energético negativo e à “anorexia induzida pelo exercício”. Restrições alimentares também resultam numa diminuição da imunoglobina SLgA.

Factores Nutricionais

Alimentos ricos em fibra, gordura, proteína, frutose estão associados a um maior risco de desenvolver problemas gastro intestinais. Resultam numa diminuição do esvaziamento gástrico e aumento do líquido para o lúmen intestinal.
As recomendações nutricionais aconselham a ingestão de glícidos para provas superiores a 90 minutos. Todavia, existe evidência que a ingestão de glícidos durante o exercício está associado ao aumento das náuseas e flatulência, no entanto a elevada ingestão está igualmente correlacionada com os tempos de chegados mais rápidos, o que sugere que estes sintomas não apresentam qualquer efeito negativo sobre o desempenho desportivo.
A ingestão de glícidos por si só, não provocam problemas gastro intestinais, estes poderão estar relacionados com vários factores: concentração de glícidos nas bebidas, tipo de monossacarídeo, osmolalidade e acidez das bebidas.
Estratégias nutricionais
Os atletas que não tem o habito de ingerir alimentos durante o exercício apresentam um risco duas vezes superior ao desenvolvimento de sintomas gastro intestinais que os atletas adaptados.
A adaptabilidade do intestino está demonstrado que o treino associado a elevada ingestão resulta num aumento da oxidação de glícidos exógenos e diminuição dos sintomas. Estes resultados demonstraram que existe uma maior capacidade de absorção no intestino quando este é sujeito a elevada quantidades de glícidos durante os treinos.
O treino associado às estratégias nutricionais aumenta o conforto e a tolerância do sistema gastro intestinal.
Outros factores
Grande número de atletas utiliza analgésicos (ibuprofeno e aspirina), para atenuar as dores durante as provas. A sua utilização está associada ao aumento do risco de hemorragias, náuseas, vómitos e diminuição da perfusão três a cinco vezes.

Implicações práticas


  • Evitar alimentos ricos em gordura, fibra, proteína no dia ou até mesmo nos dias que precedem a prova, de modo a aumentar a motilidade intestinal nas horas/dias prévios à competição
  • Desencorajar a utilização de analgésicos pré ou durante a prova
  • Prevenir a desidratação, a ingestão de líquidos deve ser baseada na taxa de sudorese do atleta
  • A concentração de glícidos nas bebidas deve de estar adequada ao atleta
  •  Utilizar múltiplos transportadores de glícidos, evitar alimentos ricos em frutose
Conclusão:

Novas estratégias devem estar incorporadas no plano de treino, o que permitirá ao atleta descobrir o que tolera melhor, reduzindo a probabilidade de ocorrência de distúrbios gastro intestinais.
O intestino é considerado um órgão atlético, porque permite o aporte de água e nutrientes durante o exercício. Os sintomas gastro intestinais são muito frequentes entre atletas, a maioria destes sintomas são leves. O treino da nutrição diminui a ocorrência de distúrbios garantindo um rápido esvaziamento gástrico, absorção intestinal e manutenção da perfusão vascular esplénica .

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